Como ler como um escritor? 5 dicas para melhorar a sua leitura e, com ela, a sua escrita criativa

É uma verdade mundialmente conhecida que todo bom escritor também é um bom leitor. Mas como ler como um escritor? Veja 5 dicas que podem melhorar a sua habilidade de leitura e consequentemente a sua escrita.

6/9/20268 min read

person reading book on brown wooden table taken at daytome
person reading book on brown wooden table taken at daytome

A Leitura como Escrita

A leitura desempenha um papel fundamental no desenvolvimento de um escritor. Seja aprendendo com os acertos e erros de um autor, tirando dúvidas quanto a execução de uma técnica, analisando diferentes abordagens de um mesmo tema ou simplesmente buscando inspiração, o ato de ler é essencial para se desenvolver habilidades de escrita.

Se um escritor não lê, como ele pode escrever bem? Como ele pode escrever, em primeiro lugar? Um autor que não lê é a mesma coisa que um pintor que não aprecia outras pinturas ou um compositor que não admira outras músicas. É errado por si só, antinatural.

Porém, como o intuito desse post já diz, ler é uma coisa, ler como um escritor é outra. Um escritor não se prende às primeiras camadas de uma história, observando apenas a superfície de acontecimentos, cenas e diálogos. Mas sim enxerga além do que está na página, vendo não só o que está escrito, mas também por que está escrito e como foi escrito.

Leitura analítica é encontrar causa e efeito em cada elemento de uma história, o que já demonstra a importância de tal hábito em nossos próprios projetos e técnicas como um todo.

Mas, afinal de contas, como ler como um escritor?

Dica 1: Leia como um leitor 

Eu definitivamente recomendo que a sua primeira leitura de qualquer livro não seja focada em fazer uma análise técnica dele, e muito menos em aprender uma técnica de escrita nova, mas sim em simplesmente desfrutar da história.

Se você está lendo um livro pela primeira vez, não se preocupe em dissecar cada frase, parágrafo ou cena enquanto lê. Isso não só pode estragar a sua experiência inédita de leitura (que para mim é mais que sagrada), como também pode não gerar os mesmos resultados que poderiam ser obtidos numa segunda leitura, devido à detalhes que passam despercebidos e à falta de entendimento prévio em relação à totalidade da obra.

Segundas (e terceiras, quartas, quintas...) leituras são imprescindíveis por causa disso, ainda que anotações durante a primeira sejam mais que bem-vindas.

Somente ao final da leitura, se você achar legal e oportuno — eu pessoalmente recomendo muito —, faça uma lista dos aspectos desse livro que mais gostou (ou não), das emoções que sentiu ao terminá-lo e das mudanças ou acréscimos que faria, porém sem se ater a detalhes minuciosos e técnicos.

Nessa primeira etapa, o foco é na experiência geral de leitura e nas impressões deixadas pelo livro. E também, é claro, no puro prazer de ler uma história.

— Antes de ler como um escritor, você deve primeiramente ser um leitor.

Dica 2: Separe as análises por partes

Após ler o livro que você pretende analisar pela primeira vez, ou selecionar um livro que você já leu e trabalhar em cima dele, chegou a hora de finalmente pôr a mão na massa.

Mas calma lá. Nada de entrar de cabeça no processo e acabar se perdendo todo. Há muitas coisas a se examinar em um livro, e por isso tentar começar sem um plano e uma ordem definida pode não só te sobrecarregar como também atrapalhar a sua aprendizagem.

Como um escritor, você já deve ter ouvido falar que uma das melhores formas de se revisar e editar um livro é começar pelos elementos maiores, que exigem mais trabalho e atenção (como tema, enredo, estrutura e arco de personagem). Depois disso, ir migrando para os elementos médios, (como construção de mundo, cenas, caracterização e pontos de virada), até chegar nos elementos menores, que podem ser melhorados com mais facilidade (como parágrafos, estrutura de frases, pontuação, gramática e embelezamento do texto).

*De cima para baixo: enredo, conteúdo, cenas e personagens principais; construção de mundo, caracterização, pontos de enredo; estrutura de frases, fluxo e ritmo de cenas; leitor beta, críticas e sugestões; pontuação e palavras faltando.

Esse método é uma ótima maneira de organizar a árdua tarefa de editar um projeto longo, permitindo uma execução mais eficiente e menos exaustiva. E, como você já deve ter percebido, ele também se aplica à leitura analítica de um livro.

Focar em dissecar um aspecto específico de cada vez é a melhor maneira de obter um bom aproveitamento dos estudos e de não perder tempo (e a cabeça) tentando ver tudo junto. Ir por etapas ajuda a percepção de detalhes que passariam batido numa leitura analítica, ao mesmo tempo que permitem uma absorção mais profunda das informações contidas no texto — o que garante um aprendizado melhor.

Siga essa ordem de estudo (ou a que mais te agradar, desde que seja separada) e me agradeça depois!

Dica 3: Anote gostos e desgostos

Não há muito segredo aqui: todo livro que lemos possui aspectos que amamos, odiamos, ou apenas… Não entendemos. Essa é uma parte natural da leitura, esses aspectos podendo ou não ser percebidos com facilidade.

A parte interessante é que eles podem ser muito úteis na hora de se ler como um escritor.

Salientar aquilo que gostamos ou não em um livro, aquilo que acrescentaríamos ou que tiraríamos, as mudanças que seriam feitas caso a história estivesse em nossas mãos, é um exercício e tanto para descobrir nossas inclinações na escrita, entender os impactos de cada elemento e escolha em um enredo e mesmo encontrar mais obras que sejam do nosso agrado.

Então, a terceira dica é essa: pegue um livro qualquer ou aquele que você está analisando e faça uma lista detalhada com tudo o que amou, odiou, não entendeu ou simplesmente mudaria nele.

Ao final da lista, tente identificar os motivos que te levaram a se sentir assim sobre cada elemento: se foi a execução do autor, o encaixe (ou desencaixe) com a narrativa, a forma como foi apresentado ou apenas o seu gosto pessoal.

E se tiver um pouco mais de ousadia, eu recomendo que reescreva algumas cenas, parágrafos ou mesmo capítulos inteiros daquela história da maneira que você acharia melhor — igualmente acrescentando os aspectos amados dela em sua própria escrita.

Isso irá tornar seus sentidos mais aguçados para entender seus gostos e desgostos, encontrá-los em narrativas e aplicá-los nos seus projetos, sempre visando aperfeiçoá-los do melhor jeito possível.

Dica 4: Se inspire

Nem preciso dizer que o meu maior momento de inspiração para escrever e criar histórias… É quando eu leio histórias, certo?

Claro, há diversas fontes de inspiração soltas pelo mundo além de livros — filmes, séries, quadrinhos, experiências reais, sonhos, etc. —, mas para mim a maior delas sempre será os próprios livros.

Digo isso não apenas me referindo a ter ideias de histórias, mas também — e até principalmente — às formas de executá-las. O que é óbvio, de certa maneira: eu quero escrever livros, então minha principal referência na hora de fazer isso serão os livros. A mesma coisa provavelmente aconteceria caso eu quisesse escrever roteiros de filmes: eu me inspiraria em filmes.

O ponto aqui é: nada melhor do que se inspirar em livros para escrevê-los. Não que não hajam outras alternativas para se inspirar e referenciar — pelo contrário, como eu citei e posso garantir, já que boa parte das ideias que tenho também vêm de outras formas de entretenimento —, mas como vimos na introdução a esse post, a leitura é imprescindível.

Então lá vai a dica: não apenas leia por ler e disseque histórias visando a parte técnica. Também se deixe levar pela parte criativa, que é tão importante quanto.

Na dica anterior, eu falei sobre a importância de analisar gostos e desgostos, mas aqui vamos focar nos gostos: pegue cada aspecto que você admirou em suas leituras e use isso para ter ideias cada vez melhores, e para executar essas ideias com cada vez mais propriedade e criatividade.

Não tenha medo de se inspirar e de se deixar ser inspirado pelos livros que consome. Também não se deixe enganar com a mentira de que a inspiração irá consumir a singularidade da sua escrita — ou até mesmo que ela é errada: inspiração é uma coisa, plágio é outra.

Toda história foi inspirada em uma ideia, conceito ou execução preexistente, e essa é a beleza da maioria das artes: o fato de que um mesmo ponto de partida pode dar diversos resultados diferentes e únicos.

A maioria dos seus escritores favoritos também se inspirou em outros escritores. Então selecione cada mundo, cada personagem e cada enredo, e os use juntos para construir algo somente seu.

Algo em que outros depois de você possam se inspirar.

Dica 5: Não se compare (de maneira tóxica)

Eu costumo pensar que existem dois tipos de comparação: a saudável e a tóxica. A saudável é aquela que nos leva à evolução, e a tóxica é aquela que nos leva à regressão.

Nem preciso dizer que devemos nos afastar completamente da tóxica, certo? Ótimo. Porque é exatamente isso o que essa quinta e última dica propõe.

A comparação tóxica não só diminui de maneira grave a nossa autoestima (em todos os aspectos da vida além da escrita, como qualquer um já deve ter percebido), como também impacta a visão que temos das nossas habilidades, gera estresse com os textos que produzimos e até mesmo diminui a nossa motivação para escrever. É um eufemismo dizer que se comparar dessa forma é caminhar para a ruína de qualquer forma de arte.

Mas, por outro lado, há a comparação saudável. Nela, analisamos a maneira como outros autores construíram suas narrativas e apresentaram suas histórias, e a comparamos com a maneira que fazemos isso em nossos próprios projetos, visando extrair os aspectos positivos e aprender com os acertos e os erros que são encontrados.

Ao invés de nos diminuir em relação ao que lemos, utilizamos esse contraste para crescer e melhorar como escritores, sendo incentivados a continuar tentando e escrevendo até um dia nos tornarmos similares às lendas da literatura que tanto admiramos.

Sem dizer que, normalmente, a comparação tóxica surge nos piores contextos possíveis: um autor iniciante ou no primeiro rascunho de um livro se comparando a um autor com anos de experiência ou em seu rascunho final e já publicado. Tal hábito comum que muitas vezes temos é tão descabido quanto perigoso.

Resumindo: se for se comparar, faça isso da maneira certa: buscando a evolução e o aprendizado pessoal, e de preferência em momentos onde a comparação seja no mínimo aceitável e balanceada. (Sim, experimente terminar de escrever o seu livro primeiro. Isso pode ajudar :)

Conclusão: Lendo como um escritor e escrevendo como um leitor

Intercalar ambas essas habilidades — interesses, trabalhos, passatempos? — é tão fundamental quanto tê-las em primeiro lugar. Como eu falei no início, um escritor que não lê é antinatural. Todo escritor é um leitor, e por isso acho importante destacar que, muitas vezes, nos esquecemos que começamos lendo livros, e não os escrevendo.

Esquecer desse detalhe pode acabar separando essas duas "personas", o que leva nossa escrita a se tornar desconectada do que queremos e apreciamos como leitores. Se não escrevemos o que gostaríamos de ler, e se pouco do que produzimos diz respeito à paixão que nos trouxe à escrita em primeiro lugar, do que tudo isso adianta?

Portanto, fica o conselho final: leia como um escritor no sentido de estudar cada pequeno e grande aspecto de um livro, tirando lições de cada escolha, termo e sentido. E escreva como um leitor no sentido de fazer cada palavra, personagem, universo e mensagem refletir o seu leitor interior, refletir aquilo que você gostaria de ler da maneira que gostaria de ler.

Desses dois jeitos, sua escrita não só irá se tornar melhor tecnicamente a cada dia, como também irá se tornar cada vez mais prazerosa de se por na página.

E lembre-se: todo bom escritor começou sendo um bom leitor.

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