4 Elementos principais de um bom personagem

Está perdido na hora de criar seus protagonistas, ou apenas quer aprimorar aqueles que já tem? Veja esses quatro elementos essenciais para formar um elenco de personagens forte que irá prender seus leitores logo nas primeiras páginas.

7/9/20269 min read

3 men and 2 women standing beside green metal gate
3 men and 2 women standing beside green metal gate

O que é um bom personagem?

Acho justo começar falando do que torna um personagem "bom" — considerando, é claro, que o significado de "bom" varia de pessoa para pessoa e de história para história.

Um "bom" personagem é, no geral, aquele que transcende as páginas e se torna quase uma pessoa real — com defeitos, qualidades, medos, crenças, objetivos, paixões e muito mais. É, então, um personagem realista, o qual nós como leitores podemos nos identificar, entender e até torcer por.

Isso não significa que os personagem precisam ser boas pessoas. Ser gentil e moralmente correto não é necessário para um protagonista ser gostável — mesmo que possa ajudar, às vezes. Existem inúmeros exemplos de personagens moralmente incorretos que são amados pelo público (até mais do que os heróis).

Ou seja, não confunda um personagem "simpatizante" com um personagem "bonzinho". Eu posso muito bem simpatizar com o Draco Malfoy, mas isso não quer dizer que ele seja uma pessoa boa (muito pelo contrário).

Mas resumindo, um "bom" personagem precisa ser tridimensional, tendo características boas e ruins, traços condizentes e contraditórios, que o tornem mais do que palavras no papel — e sim uma pessoa real, quase tangível, com camadas e camadas de complexidade que não só acrescentem à história, como também nos façam querer acompanhá-lo em sua jornada (mesmo que ela não seja exatamente heroica).

Ótimo. Então como se cria um desse?

Como criar um bom personagem?

Você não precisa de muita coisa, como já deve ter percebido pelo título desse post.

Há muitos métodos por aí falando de criação de personagens, como preencher fichas enormes e detalhadas com suas características, ou criar pastas no Pinterest com imagens que te lembrem o aesthetic deles.

Todos os métodos são válidos e podem ser úteis para cada escritor, e não existe um método "certo" ou um "errado". Porém acredito que exista sim métodos eficientes e ineficientes.

Quando você está criando um personagem do zero, ou repaginando um personagem existente, começar por detalhes inicialmente irrelevantes como "cor favorita" e "o que fez no verão passado" (ou até mesmo o passado inteiro dessa pessoinha) pode atrasar esse processo e o caminho até o bom personagem que queremos.

Nessas primeiras etapas, o importante é ter uma noção geral de quem esse personagem é, de como ele vai carregar a história e de quem ele irá se tornar ao final dela, e não o que ele comeu no café da manhã da véspera de Natal dez anos atrás.

—> Lembrando que esses detalhes pequenos fazem sim a diferença e são o que torna o seu protagonista único e mais interessante, apenas não são o ideal para se começar.

Bem, sabendo disso tudo, irei apresentar aqui o método simples e básico que serve como ponto de partida para a criação de todos os meus personagens principais.

Com ele, vamos identificar, aperfeiçoar e relacionar quatro elementos que formarão o escopo de um protagonista complexo, interessante e real.

Pegou seu bloco de notas ou abriu seu documento? Então vamos lá.

Elemento 1 - A crença errada

Você com certeza já deve ter ouvido falar nela — que também pode ser chamada de "crença falsa" ou, em inglês, "false belief". Eu igualmente me refiro à ela como "core belief" ("crença fundamental" traduzindo literalmente), já que ela é exatamente isso: a crença que é a base de toda a história, que dá início aos acontecimentos e que obriga o protagonista a evoluir.

Como o nome já diz, ela é uma crença equivocada, algo não verdadeiro que o nosso protagonista acredita e possui como verdade. É aquilo que ele passou a acreditar no passado, devido a algum acontecimento traumático ou marcante, e que ele leva consigo até os dias de hoje (o início e o desenrolar da narrativa).

Essa crença errada é aquilo que o nosso personagem precisa enfrentar e desmentir ao final da história, sendo esse seu principal arco de desenvolvimento ao longo de todo o enredo (se esse arco for positivo, é claro. Se for negativo, pode ser o contrário: o protagonista começa acreditando no oposto dessa crença errada e no final se rende a ela, ou desde o início acredita nela, tenta lutar contra isso e no final percebe que não existe escapatória).

Seja como for, a crença errada é a base de tudo: desde o comportamento atual do seu personagem e as decisões que ele toma, até a evolução dele ao final da história e quem ele vai se tornar ao enfrentar e recusar essa mentira.

Percebe como a crença errada é importante, não? Então como descobri-la?

Existem diversas formas de se fazer isso, como por exemplo começar pelo passado do seu personagem e daí descobrir a crença errada gerada a partir dele, mas há uma maneira que eu acho infalível na maioria das vezes, abrangendo quem ainda não pensou em um passado:

Disseque a sua ideia de história e pense naquilo que você quer transmitir através dela. Reflita na mensagem ou lição que você quer passar para os seus leitores, aquela famosa "moral" que aprendíamos nas fábulas escolares. Não precisa ser uma lição positiva, obviamente. Pode ser um choque de realidade, um "eu avisei" para seus personagens e para o seu público.

Pensou? Perfeito. Agora distorça essa mensagem e a transforme em seu exato oposto. Aí está a crença errada do seu personagem.

Por exemplo, se a sua mensagem é "qualquer um é digno de ser amado", a crença errada do seu personagem é "eu não mereço ser amado". Se a sua mensagem é "vingança nunca é a solução", a crença errada do seu personagem é "vingança é a solução", e por aí vai.

Ah, mais uma coisa: além de descobrir a crença errada do seu personagem, é necessário descobrir a origem dela. O que levou seu personagem a acreditar nisso? Foi um acontecimento? Outro personagem?

Com essas e outras reflexões você poderá ampliar o que já sabe sobre ele e tornar esse primeiro elemento mais complexo e credível. Além disso, poderá desenvolver os meios para esse personagem abandonar essa crença (os acontecimentos da sua história) e quem ele irá se tornar depois disso (o final da sua história).

Viu como esse único elemento já direcionou bem o seu processo de criação? Não perde o ritmo e já vamos para o próximo.

Elemento 2 - O objetivo

Se você já ouviu falar da crença errada, então com certeza já ouviu falar (e muito) do objetivo.

E com razão — um protagonista sem objetivo não passa de uma casca vazia, que não apenas desinteressa leitores como também não sustenta nenhuma história.

O objetivo é o que move o enredo, é o que faz protagonista agir para obter o que deseja — seja dinheiro, fama, amor, vingança ou simplesmente sobrevivência.

Muito se fala do objetivo, mas pouco se fala da ligação dele com o primeiro elemento, a crença errada. O objetivo de um personagem é, na maioria das vezes, tão errado quanto ela.

Mas como assim? Veja: normalmente, no início de uma história, o protagonista quer algo, ou precisa de algo, e por isso precisa se mover para conseguir esse algo. Porém, no meio da história, ele percebe que não precisava dessa exata coisa (pelo menos não do jeito que acreditava), ou ainda que esse objetivo era falso, inútil.

É aqui onde eu quero chegar. O objetivo que o protagonista tem no início da narrativa deve ser, dependendo da história, algo superficial, que ele acha que lhe trará felicidade, completude ou qualquer outra coisa, mas que na verdade não garante nada disso. E a origem desse objetivo errado é, justamente, a crença errada.

Vou utilizar o exemplo anterior: se o seu protagonista acredita que ele não merece ser amado, o objetivo dele pode ser se tornar digno de ser amado, tentando agradar as pessoas e se moldar de acordo com a vontade delas. Ou seja, ele não precisa disso, mas sim de combater sua crença errada se livrar dela.

O mesmo vale para a vingança: Se o seu protagonista acredita que vingança é a única solução para seus problemas, o objetivo dele pode ser se vingar da pessoa que arruinou sua vida. Só que ele não precisa disso, e sim de aprender que essa crença está errada e combatê-la.

Percebe como tudo começa a se encaixar? E nós só vimos dois elementos.

Para finalizar aqui, vou atribuir uma nova definição a esse segundo elemento: o objetivo é algo que o personagem inicialmente acha que precisa, mas não é o que ele realmente precisa e o que vai satisfazer o "vazio" que ele possui, gerado pela crença errada.

Esse vazio só poderá ser preenchido após se conseguir a necessidade, que é diferente de desejo. E é sobre essa diferença que vamos falar agora.

Elemento 3 - A necessidade

Essa explicação será mais curta porque já está praticamente exposta. A necessidade é aquilo que o seu protagonista realmente precisa, algo que de fato irá satisfazê-lo e preencher o vazio causado pela crença errada.

Se o seu personagem quer agradar as pessoas para ser digno de amado, o que ele precisa é entender que o verdadeiro amor não é obtido dessa maneira, e que ele merece ser amado do jeito que é.

Se o seu personagem quer se vingar para melhorar a sua vida, o que ele precisa é entender que a vingança não melhora nada, e sim apenas piora a situação de todos ao redor.

É aqui que entra a mensagem da sua história, a lição que você deseja passar para os seus leitores através do aprendizado do seu personagem. A necessidade dele é muitas vezes a moral que a sua narrativa passa, aquilo que ele precisa aprender para completar seu arco (positivo) e se tornar uma pessoa melhor e livre da crença errada ao final da história.

Os personagens muitas vezes não fazem ideia dessa necessidade ou aprendizado. E, se sabem, fazem de tudo para se afastar dela o máximo o possível.

Por que? Por que eles têm medo. E o medo é justamente o nosso quatro e último elemento.

Elemento 4 - O medo

O medo, assim como o objetivo, surge a partir da crença errada. É ele quem empurra os personagens na direção do objetivo, e quem os manda para longe da necessidade.

Isso porque como a necessidade é o completo oposto da crença errada — a verdade absoluta que nossos personagens foram ensinados a acreditar desde sempre —, é natural que eles tenham medo de enfrentá-la e, pior ainda, contradizê-la.

A crença errada é tudo o que eles têm, tudo o que os move e tudo o que conhecem, e por isso qualquer tentativa de abalar essa realidade tão enraizada em suas mentes e corações não é bem recebida.

Esse medo natural pode ou não ser percebido pelos próprios personagens. Mas uma coisa é certa: ele os mantém distantes da necessidade e da verdade que confronta a crença errada.

Se a crença errada é o passado antes da história, o objetivo é o início e a necessidade é o final, então o medo é o meio e a força que impede os personagens de irem atrás do que realmente precisam. Aqui, todas as ações deles, consciente ou inconscientes, visam permanecer à mercê da crença errada e em sua zona de conforto.

Uma parte essencial do desenvolvimento em uma narrativa "character-driven" ("dirigida pelos personagens") é exatamente a superação desse medo através de obstáculos, lições aprendidas e decisões tomadas pelos protagonistas, além de que esses medos são uma das características que mais nos fazem torcer, amar e nos identificar com os personagens.

Usando os dois exemplos de antes: se o seu personagem quer agradar os outros para ser amado e precisa aprender que deve ser amado do jeito que é, o medo dele pode ser justamente permitir que as pessoas o conheçam e o vejam do jeito que ele é.

E se o seu personagem quer se vingar para melhorar sua vida e precisa aprender que a vingança não resolve nada, o medo dele pode ser deixar seus inimigos impunes ou se contentar em poupá-los.

Vale mencionar que esse medo pode ser expandido em uma série de medos e traços menores, que refletem essa hesitação do personagem em abandonar a crença errada e as influências que vieram junto com ela.

Isso pode ser aplicado em cada um dos quatro elementos, como veremos agora.

Conclusão - Expandindo e detalhando

O processo de criação de personagens não para por aqui. Pelo contrário, há muitas e muitas lacunas para serem preenchidas, já que essa é apenas a base para te orientar nessa parte complexa e divertidíssima da escrita criativa.

Sabe os métodos que eu citei lá no início? As fichas enormes e as pastas no Pinterest? Sim, se você já não os fez, pode fazer agora sem remorso nenhum.

Mais do que isso, expanda esses quatro elementos em características menores e mais específicas, realmente dando vida a esse personagem e o tornando único, do jeitinho que você queria.

Pegue a crença errada do seu protagonista e a partir dela desenvolva um passado traumático misterioso (ou uma infância completamente saudável e normal, eu não sei).

Dê a ele um objetivo tão descabido e inútil (pelo menos para você que sabe tudo o que acontece) e depois mostre que não era necessário.

O atormente com um medo profundo e infantil que não o deixa perceber que está acreditando na coisa errada, e continue expandindo tudo isso até não haver mais o que inventar (o que é impossível, na verdade. Sempre tem o que inventar).

E, o principal: se divirta. Não é à toa que criar personagens é uma tarefa apreciada até mesmo por aqueles que não são escritores ou que não trabalham com roteiros e coisas do tipo (vamos lá, quem é que não tem um "OC " — "original character" — hoje em dia?).

Não deixe de aproveitar ao máximo essa etapa e de criar personagens que serão os queridinhos seus e dos leitores (mesmo que você pretenda matá-los).

Espero que essas dicas te ajudem na criação do seu próximo elenco de bons personagens, e peço que coloque nos comentários qual delas mais te ajudou — e até mesmo um exemplo de aplicação em um do seus protagonistas.

Boa escrita e até a próxima!

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